Hoje, te vejo aí, nessa cama de hospital, com a máscara que te esconde a barba, mas não te apaga o sorriso maroto que insiste em escapar pelo canto dos olhos. Vejo essa touca de tricô, um agrado de alguém que te ama, e penso: "quem diria que o boêmio inveterado terminaria assim, cercado de lençóis brancos?"
Mas a gente sabe, pai, que você é muito mais do que isso. Você é o "velho lobo" da família. O cara que enfrentou a vida de peito aberto, com uma coragem que às vezes beirava a imprudência. Quantas vezes eu te vi, quando criança, rindo de desafios que me faziam tremer? Você não tinha medo de errar, de cair, de recomeçar. Você viveu intensamente, como se cada dia fosse o último, sem olhar para trás com arrependimento.
Nossa relação, ah, essa foi uma montanha-russa. Houve dias em que o ódio parecia dominar, quando suas decisões me magoavam profundamente. Eu te julgava, te cobrava, queria que você fosse diferente, que você fosse o pai perfeito que eu idealizava. E você, fiel à sua natureza, continuava sendo você mesmo, com todos os seus defeitos e qualidades.
Mas, no fundo, sempre soube que aquele ódio era apenas uma casca, uma proteção. O amor estava lá, escondido nas entrelinhas, nas piadas que você contava para me animar, nas histórias que você repetia incansavelmente sobre suas aventuras passadas. E com o tempo, eu fui entendendo. Fui percebendo que a gente se parecia muito mais do que eu gostaria de admitir. Temos o mesmo espírito rebelde, a mesma teimosia, a mesma vontade de viver a vida em nossos próprios termos.
Hoje, te vejo nessa cama e o que sinto é uma mistura de tristeza e admiração. Tristeza por te ver assim, frágil, mas também admiração por tudo o que você construiu. Você viveu a vida como quis, sem pedir desculpas por quem você é. E isso, pai, é algo raro e precioso.
Você foi o boêmio, o valente, o cara que não se encaixava em moldes. E mesmo com todos os seus erros, você foi um pai presente, à sua maneira. Você me ensinou a ser forte, a não ter medo de arriscar, a ser eu mesma.
Hoje, no seu grande baile, eu não te vejo como o paciente na cama. Eu te vejo como o dono da festa. O cara que, apesar das dificuldades, ainda tem um sorriso para oferecer. Eu te amo, pai, com todos os seus defeitos e com a certeza de que você é, sim, um cara foda. E que sua história, com seus altos e baixos, merece ser contada e celebrada.
Que o seu grande baile ainda tenha muitos compassos, meu velho lobo. Te amo , de filha da puta pra fela da puta.
