Cem anos depois — ou pelo menos foi isso o que o relógio biológico me garantiu —, voltei a atravessar o portão da Coperil, em Irecê. Mas, desta vez, o uniforme vinha em miniatura, pendurado nos ombros de quem realmente importa: minha filha.
Se o calor de Irecê já castigava o meu juízo na década de 90, a sensação térmica de entrar ali como mãe é oficialmente a prova de que o tempo voa, mas o bafo quente da nossa querida Bahia continua rigorosamente o mesmo. Olhei para o pátio e tive um leve calafrio nostálgico. Será que o bebedouro ainda dava aquele choque de leve na língua? Seria o giz do quadro-negro o mesmo terror alérgico da minha infância?Enquanto eu tentava manter a pose de adulta madura, equilibrada e dona de si, a criatura simplesmente ignorou minha carga emocional, arrancou a mochila das costas e saiu correndo para dominar o território como se a diretoria pertencesse à nossa dinastia.
O golpe final veio na hora da fila. A professora chamou o nome dela e, por um microssegundo, meu cérebro deu tela azul: eu jurei que era eu quem ia tomar bronca por rir na hora da chamada. Olhei para os lados, esperei minha mãe aparecer com a lancheira, mas não — a mãe agora era eu. E a ficha só caiu de vez quando percebi que a minha herdeira genética estava sentada exatamente na mesma fileira (talvez na mesma cadeira!) onde eu sonhava acordada com a hora do recreio, enquanto desenhava corações marginais no caderno de caligrafia.
Minha filha está oficialmente repetindo a história, mas com uma vantagem injusta: ela tem muito mais estilo do que eu tinha aos sete anos. Saí da escola de alma lavada, rindo sozinha na calçada quente de Irecê, pensando que a Coperil pode até ter mudado a cor da tinta da parede, mas a missão de transformar nossas filhas em miniaturas endiabradas de nós mesmas continua firme e forte.
