Dizem que o frio preserva as coisas. Conserva os alimentos na geladeira, mantém a neve branquinha no topo das montanhas e, aparentemente, congela memórias que a gente insiste em não descongelar.
Estou aqui, a três mil metros de altitude, posando para uma foto com esse casaco vermelho que comprei justamente porque ele "combina com o seu cachecol", como você disse anos atrás. Naquela época, o plano era épico: viríamos juntos, conquistaríamos o cume, tomaríamos um chocolate quente caro demais e voltaríamos para casa contando histórias de aventureiros.
Bom, o chocolate quente está aqui. A montanha também. Só faltou o resto da equação.A vida é engraçada. Se nos encontrarmos no corredor amanhã, vai ser aquele cumprimento protocolar: "Oi, tudo bem?", "Tudo, e você?", "Pois é, o tempo mudou, né?". Um diálogo rápido entre duas pessoas que, tecnicamente, já imaginaram como seria a vida uma da outra no topo do mundo.
Enquanto ajeito o capuz, sinto o vento gelado no rosto e dou uma risada meio torta. O sonho não foi vivido, mas a viagem aconteceu. A diferença é que agora não preciso dividir o chocolate quente com ninguém, nem fingir que não estou morrendo de frio para parecer mais corajosa.
A montanha continua linda, indiferente às nossas pequenas reviravoltas. E eu? Bem, eu descobri que, embora o plano fosse vir a dois, a vista é igualmente incrível (e muito mais silenciosa) quando a gente decide seguir viagem.
Pelo menos o casaco combina comigo. E isso, convenhamos, já é uma vitória e tanto
